Hantavírus entra na mira após surto em cruzeiro

Hantavírus entra na mira após surto em cruzeiro
Vista geral do navio de cruzeiro MV Hondius atracado ao largo do porto de Praia, capital de Cabo Verde, em 3 de maio de 2026 • AFP

A Organização Mundial da Saúde acompanha um possível surto de hantavírus a bordo de um navio de cruzeiro que navegava pelo Oceano Atlântico. Até agora, três mortes foram registradas e pelo menos outras três pessoas apresentam sintomas, uma delas está em terapia intensiva.

A operadora Oceanwide Expeditions, responsável pela embarcação MV Hondius, informou que enfrenta uma “situação médica grave” a bordo. Uma variante do hantavírus foi detectada no paciente que permanece internado.

Segundo a empresa, dois tripulantes também apresentam sintomas respiratórios agudos, um com quadro leve e outro em estado grave, e ambos necessitam de atendimento médico urgente.

O navio segue isolado na costa de Cabo Verde. Ao todo, 149 pessoas de 23 nacionalidades estão a bordo, sem registro de brasileiros. O desembarque, o atendimento médico e a triagem dos passageiros dependem de autorização das autoridades sanitárias locais.

A doença
Segundo a Organização Mundial da Saúde, os hantavírus são vírus zoonóticos que têm os roedores como hospedeiros naturais e podem, eventualmente, infectar humanos. A infecção pode evoluir para quadros graves e até fatais, variando conforme o tipo de vírus e a região.
Nas Américas, está associada à síndrome cardiopulmonar por hantavírus, que compromete rapidamente pulmões e coração. Já na Europa e na Ásia, é mais comum a febre hemorrágica com síndrome renal, que atinge principalmente rins e vasos sanguíneos.

Classificação viral
Os hantavírus integram a família Hantaviridae e, em geral, cada variante está ligada a uma espécie específica de roedor, na qual o vírus permanece por longos períodos sem causar sintomas aparentes. Apesar da diversidade global, apenas algumas variantes são capazes de provocar doença em humanos.
O vírus Andes, por exemplo, é o único com evidência de transmissão limitada entre pessoas, especialmente em contatos próximos e prolongados, com registros na Argentina e no Chile.

Transmissão
A principal forma de contágio ocorre pelo contato com urina, fezes ou saliva de roedores infectados. Em casos mais raros, pode haver infecção por mordidas.
Atividades como limpeza de ambientes fechados e pouco ventilados, trabalho agrícola ou florestal e permanência em locais infestados aumentam o risco.
A transmissão entre humanos, quando ocorre, está associada a contato íntimo e prolongado, sobretudo no início da doença.

Sintomas e quadro clínico
Os sintomas costumam surgir entre uma e seis semanas após a exposição e incluem febre, dor de cabeça, dores musculares e sintomas gastrointestinais, como náuseas e vômitos.
Na forma cardiopulmonar, pode haver rápida evolução para tosse, falta de ar, acúmulo de líquido nos pulmões e choque.
Já na forma hemorrágica com comprometimento renal, podem ocorrer queda de pressão, sangramentos e insuficiência dos rins em estágios mais avançados.

Diagnóstico
A identificação precoce pode ser difícil, pois os sintomas iniciais se confundem com outras doenças, como gripe, covid-19, pneumonia viral, leptospirose, dengue ou sepse.
A OMS destaca a importância de uma avaliação clínica detalhada, considerando exposição a roedores, atividades de risco, viagens e contato com casos suspeitos.
A confirmação depende de exames laboratoriais, como testes sorológicos para detecção de anticorpos e métodos moleculares que identificam o material genético do vírus na fase aguda.

Tratamento
Não há tratamento específico para a infecção por hantavírus. O atendimento médico precoce é essencial e se baseia em suporte clínico intensivo e controle de complicações.

Prevenção e controle
A principal medida preventiva é evitar o contato com roedores. Entre as recomendações estão:

  • manter ambientes limpos e organizados;
  • vedar acessos que permitam a entrada de roedores;
  • armazenar alimentos corretamente;
  • adotar práticas seguras na limpeza de áreas contaminadas;
  • evitar varrer fezes secas, priorizando a umidificação antes da limpeza.

Em situações de surto, a OMS orienta a identificação e o isolamento rápidos de casos, além do monitoramento de contatos e adoção de medidas padrão de controle de infecções para reduzir a disseminação.